O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) destaca como sinais e sintomas de suspeição as alterações do hábito intestinal (diarreia, constipação ou alternância entre ambas), a perda de peso não intencional, a anemia ferropriva, a presença de fezes escuras ou com sangue visível, o sangramento retal (hematoquezia), a massa abdominal palpável e a dor abdominal persistente, todos indicativos de necessidade de investigação oportuna. Na APS, tais achados devem ser valorizados, sobretudo quando persistentes ou recorrentes.

O câncer colorretal figura entre as neoplasias malignas de maior incidência e mortalidade no mundo. Revisão recente publicada no Lancet Oncology destaca que a doença permanece como o terceiro tipo de câncer mais diagnosticado globalmente. Segundo dados da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC/OMS), em 2022 foram registrados mais de 1,9 milhão de casos novos e mais de 900 mil óbitos atribuídos à doença em todo o mundo. No Brasil, a estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2026–2028 aponta 53.810 casos novos por ano, correspondendo a um risco estimado de 25,11 casos por 100.000 habitantes, sendo 26.270 casos em homens e 27.540 em mulheres [3]. Esses dados reforçam a relevância do tema para a Atenção Primária à Saúde (APS), especialmente diante do potencial de cura da doença quando identificada em estágio inicial, antes da ocorrência de metástases.

O tipo histológico predominante é o adenocarcinoma, responsável pela ampla maioria dos casos. Uma parcela dos casos decorre de predisposição hereditária, incluindo síndromes como a polipose adenomatosa familiar e a síndrome de Lynch. Também apresentam risco elevado indivíduos com doença inflamatória intestinal e aqueles com antecedentes pessoais de pólipos adenomatosos ou serrilhados avançados. Na APS, essas informações devem ser sistematicamente incorporadas à anamnese, com registro da história familiar, idade de ocorrência do câncer em parentes de primeiro grau e antecedentes pessoais de lesões precursoras ou doenças inflamatórias intestinais.

Entre os principais fatores de risco modificáveis associados ao câncer colorretal destacam-se obesidade, sedentarismo, consumo de bebidas alcoólicas, tabagismo, dieta rica em carnes vermelhas e processadas e baixa ingestão de frutas, legumes e verduras. Na APS, esse perfil de risco permite integrar a prevenção oncológica às ações de promoção da saúde e ao manejo das doenças crônicas não transmissíveis. O aconselhamento sobre alimentação saudável, prática regular de atividade física, cessação do tabagismo e redução do consumo de álcool deve ser compreendido, portanto, também como prevenção do câncer colorretal.

É fundamental distinguir conceitualmente rastreamento de diagnóstico precoce. Rastreamento refere-se à realização de exames em indivíduos assintomáticos com o objetivo de detectar a doença em fase pré-clínica; diagnóstico precoce, por sua vez, diz respeito à identificação rápida da doença em pessoas que já apresentam sinais ou sintomas suspeitos. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) brasileiro ressalta que, em contextos com limitação de infraestrutura e recursos humanos, deve-se priorizar a investigação diagnóstica de casos sintomáticos suspeitos, em consonância com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Para o médico de família, isso implica que, mesmo na ausência de um programa populacional estruturado de rastreamento, a redução dos atrasos diagnósticos em pacientes sintomáticos permanece como responsabilidade clínica essencial.

Nas últimas décadas, observou-se aumento progressivo da incidência do câncer colorretal em adultos jovens, geralmente definido como aquele diagnosticado antes dos 50 anos de idade. Estudo internacional de base populacional demonstrou incremento da incidência nessa faixa etária em 27 de 50 países e territórios analisados. Revisão sistemática com metanálise evidenciou que os sintomas mais frequentemente relatados por pacientes jovens são hematoquezia, dor abdominal e alteração do hábito intestinal, com associação relevante entre anemia ferropriva e o diagnóstico nessa faixa etária — achado que deve acelerar a investigação diagnóstica. Dessa forma, a faixa etária jovem não constitui critério suficiente para excluir a hipótese diagnóstica na presença de sinais de alerta.

Na suspeita clínica de câncer colorretal, a conduta deve priorizar a investigação diagnóstica oportuna. A solicitação sequencial de dois testes imunoquímicos fecais (FIT) em intervalo de três meses não é recomendada como rotina diagnóstica em pacientes sintomáticos. Nas diretrizes vigentes, o FIT quantitativo pode auxiliar a decisão de encaminhamento em indivíduos sintomáticos selecionados, mas não deve postergar a investigação especializada quando houver suspeita clínica relevante. A diretriz do National Institute for Health and Care Excellence (NICE) recomenda o FIT quantitativo em adultos com alteração do hábito intestinal, anemia ferropriva, perda de peso e dor abdominal inexplicadas, entre outros cenários clínicos, considerando encaminhamento por via de suspeita de câncer quando o resultado for igual ou superior a 10 µg de hemoglobina por grama de fezes. Pacientes com massa retal, massa anal inexplicada ou ulceração anal inexplicada não devem aguardar o resultado do FIT para encaminhamento especializado. No Brasil, o PCDT reforça a prioridade da investigação de casos sintomáticos, sem recomendar o referido esquema de dois exames para esse grupo.

A colonoscopia permanece como exame de eleição para a investigação do câncer colorretal, por possibilitar a visualização direta da mucosa do colón, a obtenção de biópsias de lesões suspeitas e a ressecção de pólipos quando tecnicamente viável. A retossigmoidoscopia pode ser empregada quando a colonoscopia não estiver disponível, embora sua limitação ao cólon distal restrinja a abrangência diagnóstica. O diagnóstico definitivo de adenocarcinoma de cólon e reto é estabelecido por meio de exame anatomopatológico de amostra obtida do tumor primário ou de lesão metastática correlata.

A APS desempenha papel central na redução dos atrasos diagnósticos do câncer colorretal. Para tanto, é necessário organizar o cuidado de forma a evitar a perda de oportunidades diagnósticas. Isso implica o acolhimento qualificado da queixa, a realização do exame físico, a investigação laboratorial de anemia, o registro sistemático dos fatores de risco, a orientação sobre sinais de piora, o seguimento da evolução clínica e o encaminhamento ágil quando houver indicação de colonoscopia ou avaliação especializada. Todos os pacientes que apresentem sangramento retal, anemia ferropriva inexplicada, dor abdominal persistente, perda de peso não intencional ou alteração do hábito intestinal devem ser avaliados com rigor clínico, independentemente da faixa etária. Em cenário de elevada carga da doença no Brasil e de crescimento dos casos de início precoce, essa postura é fundamental para ampliar a proporção de diagnósticos em fase inicial e, consequentemente, melhorar os desfechos clínicos.

Bibliografia selecionada:

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Adenocarcinoma de Cólon e Reto [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2025 [citado 2026 maio 19]. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/adenocarcinoma-de-colon-e-de-reto-pcdt. [Acesso: 01/06/2026]
  2. National Institute for Health and Care Excellence. Suspected cancer: recognition and referral. NG12 [Internet]. London: NICE; 2026 [citado 2026 maio 19]. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng12/chapter/recommendations-organised-by-site-of-cancer. [Acesso: 01/06/2026]
  3. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Estimativa 2026–2028: síntese de resultados e comentários [Internet]. Rio de Janeiro: INCA; 2026 [citado 2026 maio 19]. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/numeros/estimativa/sintese-de-resultados-e-comentarios. [Acesso: 01/06/2026]
  4. Demb J, Cheng E, Liu L, Landy R, Meester RGS, Gupta S, et al. Red flag signs and symptoms for patients with early-onset colorectal cancer: a systematic review and meta-analysis. JAMA Netw Open [Internet]. 2024;7(5):e2415758 [citado 2026 maio 19]. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2819248. [Acesso: 01/06/2026]
  5. Sung H, Siegel RL, Laversanne M, Jiang C, Morgan E, Zahwe M, et al. Colorectal cancer incidence trends in younger versus older adults: an analysis of population-based cancer registry data. Lancet Oncol [Internet]. 2025;26(1):51-63 [citado 2026 maio 19]. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39674189/. [Acesso: 01/06/2026]

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